sábado, 14 de Novembro de 2009

Apontamentos - 17

Dormir treze horas. Dormir catorze horas. Depois acelerado. A vitamina X a puxar-nos o tapete. A dimensão real das coisas, vulgo objectos, pessoas, automóveis, compras. A proporção da realidade não corresponde ao eco que estala dentro de mim. Uma escarpa a distanciar a mão que se estende. Não me sei no topo (o corpo proliferando como uma serpente desnorteada pela iminência do golpe); nem sequer na superfície térrea (a mesma serpente imóvel gozando a vaga de poeira e o consolo do sol). Dormir todas as horas, para depois acelerado fingir não reparar nas fotografias, nos livros, nos textos, nos post’its colados na estante. Cada um deles um capítulo de um livro. Uma acção. Outro livro de mortes. Tem investigações absurdas. Polícias incompetentes. Gente má. Malvadas pessoas que apenas prosseguem os dias numa fúria escandalosa de conforto e confronto pessoal. Sempre em teste. Em combustão necessária para se sentirem vivas. A estante cheia de papéis amarelos. Já me prometi. Quarenta papéis para quarenta capítulos. Eventualmente, acrescento a cada um deles um alinhamento vertical com mais papéis amarelos para neles decidir as dores, as cores, os cheiros, a merda que compõe o lado humano que nos envergonha, que nos destrói pelos simples facto de o sermos. E depois viro-me para o lado. É cedo. Meio-dia é muito cedo para acordar. Ou então não. Vitamina X e a vida parece um carrossel de imbecil felicidade.

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Ficções - 24

«Aperte com força!», e eu apertava a ponta dos dedos acabados de picar. Um biombo de vidro fosco separava-me de uma senhora idosa. Vira-me chegar trazido em ombros. Eu a deitar-me na maca, as imagens difusas, o meu peito a chamar-me para outra dimensão. Uma enfermeira a quem não vi o rosto tocava-me na mão com uma ternura quase familiar. Eu queria estar do outro lado do biombo. Do outro lado da janela. Do outro lado da barricada. Queria ser a senhora idosa que só ali estava para lhe medirem a tensão. O rapaz entrara a desfalecer, carregado como um objecto desprovido de sentido. O meu pai a dizer-me «És tu este rapaz.» Mas eu era apenas alguém tocado por uma enfermeira que podia ser minha amante. Uma amante que tocasse assim na minha mão para que pudesse ficar quieto, sem nunca sentir vontade de saltar o biombo. O meu nome emperrado na língua. «O que tomou?», ouço alguém perguntar. Eu a tomar banho, e farto de não cair. Eu a fechar a torneira já um pouco cego. A janela aberta. O biombo. O vidro fosco. O meu pai a dizer-me «Estou feito contigo.» E este estar feito era como dizer «Serás mesmo tu este rapaz?» A torneira fechada. O meu corpo nu a seguir aos solavancos até à cama. A maca. A mão na maca era um novo telefonema. O dizer a alguém que os vidros foscos também têm sol do outro lado.

domingo, 8 de Novembro de 2009

Boa Noite

Um pouco mais adiante nessa madrugada dei comigo sóbrio e só. Frente ao sítio onde eu morava. Olhei um gato que se espreguiçava à luz dum candeeiro nabo. Isto na Lapa. Tínhamos tudo menos sono, o gato e eu. Deixando o bicho entregue ao seu destino, segui o meu repondo o carro a trabalhar e arrancando para a Graça.

Sabia onde morava a Luísa, que a deixara em casa. Bati-lhe à porta sem saber o que esperar, como acontece sempre que mergulhamos de cabeça em águas novas. Abriu, cheia de roupão e sono. Na estupefacção de quem acorda com desconhecido à porta. Senti-me na obrigação de atravessar essa barreira.

«Tinha que ver-te outra vez. Esta noite. Desculpa se te acordei.» Ela esfregou o olho esquerdo.

«Tu és aquele gajo doido?»

«Sou.»

«Que é que queres agora?»

«Não sei», disse eu. «Vim cá por isso.»

in A Noite e o Riso, Nuno Bragança.
fotografia: Catarina Ribeiro.

sábado, 7 de Novembro de 2009

Há 33 anos

Falamos de ciclos. Falamos do desconhecido. Da praia que ainda hoje percorro, fitando o mar revolto, as pessoas cruzando-se, as suas histórias as minhas histórias, as dores, as dores de todos. Falamos de ciclos que se fecham num episódio iluminado de perda, de desassossego permanente por isto de viver. Há 33 anos eu podia chorar. Eu hoje queria poder chorar e resolver as mesmas birras, os problemas aos quais um simples afago no cabelo já não chega, um toque de mão numa perna já não chega, um «afinal como estás?» já não chega. E quase sempre, sempre quase assim, acabo por me deixar estar sentado na mesma areia, e mexer num dedo do pé como se brincasse com o que chamamos de destino, e oferecer ao vento que levanta a areia aos meus olhos, a direcção prevista para um próximo esforço. Para uma nova tentativa.

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Ficções - 23

Eu se pudesse nunca cá andava. Fazia de mim uma pessoa hercúlea, e com manifesta habilidade para os jogos de espelhos. Passeava nas sombras, espaços sem nome. Evocava musas com quem me cruzaria numa esquina, pessoas que eu nunca mais voltaria a ver. E sofreria muito. Agora com um rosto que não fosse o meu, ou algo parecido como alguém que olhando nos olhos de outro, nada vê concretamente. Depois subiria pela atmosfera. Passo a passo direitinho a estatelar-me num sonho improvável; imagina um quadro surreal, de céu muito azul, e os nossos dedos a ganharem teimosia translúcida e enovelarem-se nesse céu azulíssimo, frio de tão azul, azul daquele azul tipo capa national geographic. E mesmo nesse sonho eu seria um outro. Alguém cujas formas espantaria as madrugadas. Noites que nunca noites, feitas rasgos de lume. Repara. Apenas preciso de suar em alguém, para que esse alguém me possa dizer: «Este és tu. Mas agora, acorda…»
Outras vezes penso. Sou todo esta loucura. Uma habitação prestes a aluir. Aluada. Aluado eu de transe, a risível faceta da ficção a cobrar. Eu depois a dizer-lhe «Aguenta». Mas sobre nós uma luz rubicunda, incêndio tácito dos poetas, península de um abraço incompleto. Mãos dadas. «Aguenta». Que pensas? Ainda estou no quadro azul, ainda os meus dedos um turbilhão de movimentos. Eu a arranjar desculpas de «este Natal isto, aquele outro aquilo.» Aguenta, ouço de ti. Castigo-te: «Beija-me», «É tarde – respondes – há muito que foste. Onde estás?» Aqui, penso. Aqui ainda. Ainda aqui. Aqui. Achamo-nos. Os livros nunca se garantem. Padecem do crivo final que nos remoa. Não burilam marcas definitivas. É isso que nos prende à escrita. A demanda alquímica da clarividência. «Qual quê? Há muito que foste!» gritas novamente. Eu ainda preso a um azul indefinível, eu ainda suado olhando-me ao espelho, eu ainda prestes a sair de madrugada. Eu ainda cansado dos natais isto, dos natais sempre aquilo, a padecer do pouco que os livros são capazes de dar. «Vou sair», informo. Antes da porta bater, consigo ouvir: «Pensei que ficasses até tarde.»

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Foi uma bela noite





Obrigado a todos os presentes. A quem foi de Lisboa a Évora para me ver. Às 19 pessoas que compraram o meu cd. (vender 19 cd's numa só noite é algo que não esquecerei tão depressa). A todos os que me viram na primeira vez e voltaram a estar presentes. À Ana e ao Davide da Intensidez, sempre amigos e disponíveis. Ao Rodrigo pela escolta pessoal até aos meus aposentos. Ao Jorge Fallorca pelas fotos em cima e por tudo o resto.

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Até Sábado, em Évora.


No próximo Sábado estarei em Évora. Tocarei 14 músicas. Aguardo por vocês. Mais informações, passem pelo blog da Intensidez.